No Jack Marin, a cidade passou pelas mãos das goleiras

Domingo de manhã foi um dia que já amanheceu glorioso. Primeiro porque quem saiu da cama naquela friaca, menos de 24 horas depois da estreia da Seleção na Copa, já merece algum tipo de reconhecimento. Depois porque antes de virar placar, a rodada no Estádio Municipal Jack Marin virou uma sequência de pequenas histórias vitoriosas. E, desta vez, as protagonistas foram elas: as goleiras.

Rolou tudo de rodada pegada de futebol: goleira saindo machucada, goleira entrando no improviso, defesa no limite, pênalti defendido e empate segurado até o último lance. Daquelas atuações que nem sempre aparecem na foto da comemoração, mas ajudam a construir o resultado.

Foi um daqueles domingos em que São Paulo pareceu caber inteira dentro de um campo. Cidade Tiradentes, Itaim Paulista, Itaquera, Campo Limpo, Jaçanã, Cidade Ademar, Parelheiros, M’Boi Mirim e Sé se encontraram no mesmo gramado, cada território levando sua camisa, sua torcida, sua urgência e seu jeito de disputar bola.

A rodada começou às 9h, com o Futebol de Campo Feminino abrindo o dia, e atravessou a tarde até os confrontos masculinos. No meio disso tudo, sete partidas classificatórias dos Jogos da Cidade mostraram que uma rodada não se resume a gols. Às vezes, ela se explica melhor por uma defesa, uma trave, uma lesão, um rebote aproveitado ou uma bola que parecia perdida e virou memória.

Vamos aos jogos.


Futebol Feminino abriu o dia com protagonismo e personalidade


A primeira bola rolou ainda pela manhã e deu o tom do que seria a rodada. Se alguém chegou ao Jack Marin esperando partidas travadas ou cautelosas, logo precisou rever a expectativa.

Grupo 2 | AE Cidade Tiradentes 2 x 0 Falconets

O placar final mostra uma vitória por dois gols de diferença. O jogo, porém, conta uma história um pouco diferente.

O Cidade Tiradentes passou boa parte da manhã rondando a área adversária. Antes mesmo de abrir o placar, acumulou finalizações com Thalita, Sheila e Renatinha. Do outro lado, a goleira Daiane, conhecida como Dai, virou personagem da partida ao realizar uma sequência de intervenções que mantiveram as Falconets vivas no confronto.

Aos 22 minutos do primeiro tempo, veio um dos momentos mais delicados do dia. Após sair para interceptar uma jogada, Dai se lesionou e precisou deixar o gramado. Poucos minutos depois, a pressão do Cidade Tiradentes finalmente encontrou recompensa. Após uma finalização de Jéssica, a bola sobrou para Renatinha completar para as redes.

O segundo tempo começou da mesma forma que o primeiro terminou: com o Cidade Tiradentes no ataque. Logo aos cinco minutos, Renatinha apareceu novamente para aproveitar o rebote de uma defesa da goleira e ampliar a vantagem.

Mesmo com a vitória construída com tranquilidade, o jogo também teve sua dose de preocupação. Bebel, do Cidade Tiradentes, precisou deixar o campo após sentir um problema físico. Ainda assim, a equipe manteve o controle da partida até o apito final.

Renatinha terminou a manhã como protagonista, marcando os dois gols da vitória e liderando uma atuação ofensiva que poderia ter produzido um placar ainda mais amplo.

Grupo 2 | Kebrada 0 x 0 Coroa Futebol Clube

Se o primeiro jogo foi de domínio territorial, o segundo ficou marcado por um duelo particular. De um lado, Fabiana Aparecida, a Fabi. Do outro, Ariane Soares.

As duas goleiras transformaram um jogo cheio de oportunidades em um raro empate sem gols.

O Coroa criou uma das melhores chances da primeira etapa em cobrança de falta de Giovanna. A bola desviou, encontrou o travessão e exigiu uma defesa espetacular de Fabi. Pouco depois, a goleira voltaria a aparecer em um chute de voleio que parecia destinado ao gol.

O Kebrada respondeu em diversos momentos. Ana Júlia 10 levou perigo, Josefa Raniely 15 obrigou Ariane a fazer uma grande defesa e Wendy 21 ainda tentou encontrar o gol nos instantes finais.

Mas o roteiro daquele jogo parecia decidido pelas arqueiras. Quando o relógio se aproximava dos acréscimos, Fabi realizou mais uma defesa decisiva para garantir o empate. Não houve gols, mas houve a sensação de que as duas equipes deixaram o campo sabendo que encontrariam adversárias difíceis de superar.

Grupo 3 | Garotas Parque Regina 0 x 2 Atlético do Jaçanã

O terceiro confronto do dia começou com um contratempo que mudaria o roteiro da partida. Por volta dos dez minutos, a goleira Milene 12, do Garotas Parque Regina, precisou ser substituída por lesão. Sami assumiu a posição e viu um jogo equilibrado ganhar novos contornos a partir da bola parada.

Aos 19 minutos, Maria Fernanda apareceu na primeira trave para desviar uma cobrança e abrir o placar para o Atlético do Jaçanã. Mas foi pouco antes do intervalo que surgiu o lance que provavelmente permanecerá na memória de quem acompanhou a partida.

Brenda  dominou a bola no peito e acertou um chute no ângulo. Um daqueles gols que fazem até quem está do outro lado do campo interromper a conversa para acompanhar a comemoração.

Com a vantagem construída ainda na primeira etapa, o Atlético do Jaçanã administrou melhor a partida. O Garotas Parque Regina tentou reagir e quase descontou quando Letícia Santana acertou a trave, mas a tarde já parecia caminhar na direção da equipe da Zona Norte.

Ao final, o 2 a 0 confirmou a vitória do Atlético do Jaçanã e consolidou Brenda 6 como um dos grandes nomes da rodada.

Grupo 1 | Pioneer FC 2 x 0 Represa Nova

Alguns gols nascem de jogadas trabalhadas. Outros surgem porque alguém percebe algo que ninguém mais viu. Foi mais ou menos isso que aconteceu no duelo entre Pioneer F.C e Represa Nova.

Thalita da Conceição abriu o placar logo aos cinco minutos, aproveitando uma sobra dentro da área. O gol deu tranquilidade ao Pioneer, que controlou boa parte da partida e ainda acertou o travessão antes do intervalo.

Mas o momento mais marcante veio na segunda etapa. Aos 12 minutos, Thalita percebeu a goleira adiantada e arriscou de muito longe. A bola encobriu a marcação, ganhou altura e encontrou as redes. Um gol por cobertura que ampliou a vantagem e arrancou reações até de quem acompanhava a partida do lado de fora do alambrado.

O Represa Nova ainda teve a oportunidade perfeita para voltar ao jogo quando a arbitragem assinalou um pênalti a seu favor. Na cobrança, porém, Nayara fez a defesa e manteve a vantagem do Pioneer.

Foi o último grande capítulo de uma partida que teve em Thalita sua principal personagem.

Grupo 1 | Grêmio Esperança 1 x 4 Brasília FC

O último jogo do Futebol Feminino foi também o mais movimentado. Antes do primeiro minuto, Thaís já precisou trabalhar para evitar o gol do Grêmio Esperança. O início indicava equilíbrio, mas o placar rapidamente ganhou velocidade.

Raíssa aproveitou uma falha na saída da goleira adversária e abriu o marcador para o Brasília FC. Pouco depois, Gabi respondeu com um dos gols mais bonitos do dia: chute cruzado, bola na trave e empate para o Grêmio.

A igualdade, porém, durou pouco. O Brasília encontrou uma sequência avassaladora. Suellen recolocou a equipe em vantagem e, logo depois, Angélica Santiago, a Kero Kero, começou a construir sua tarde especial.

Ela marcou ainda no primeiro tempo, voltou a balançar as redes poucos minutos depois e deixou o gramado para o intervalo com dois gols e participação decisiva na construção da vantagem.

Na segunda etapa, o ritmo caiu, mas o protagonismo permaneceu o mesmo. Já nos minutos finais, Kero Kero apareceu mais uma vez para completar o hat-trick e fechar a goleada.

Quando o apito final chegou, o Brasília F.C saía de campo com a vitória mais elástica da rodada feminina. E Kero Kero 11 deixava o gramado como a única atleta a marcar três vezes naquele domingo.

O futebol masculino fechou o dia com eficiência e poucas margens para erro

Depois de uma manhã e uma tarde dominadas pelo Futebol Feminino, o relógio avançou e o Jack Marin mudou de atmosfera. As arquibancadas ganharam novos rostos, as conversas passaram a girar em torno dos grupos masculinos e a região da Sé assumiu o protagonismo dos dois últimos confrontos do dia.

Se os jogos anteriores tinham sido marcados por goleiras decisivas, o encerramento da rodada trouxe outra característica: partidas resolvidas por detalhes, eficiência e aproveitamento das oportunidades.

Grupo A | Paim Bela Vista FC 1 x 0 Rio Branco Aclimação

Há partidas que levam tempo para encontrar um rumo. Esta não foi uma delas.

Com apenas três minutos de jogo, Bruno Bonfim aproveitou uma indecisão da defesa e da saída do goleiro para empurrar a bola para as redes e colocar o Paim Bela Vista em vantagem.

O gol cedo mudou completamente a dinâmica do confronto.

O Rio Branco precisou correr atrás do resultado e encontrou dificuldades diante de um adversário organizado. Ainda assim, a equipe permaneceu viva durante praticamente toda a partida graças à atuação de David da Silva.

O goleiro acumulou defesas importantes ainda no primeiro tempo, incluindo uma intervenção com a ponta dos dedos que evitou o segundo gol adversário. Em outros momentos, voltou a aparecer para segurar finalizações perigosas e impedir que a diferença aumentasse.

O Rio Branco tentou responder. Luan Medeiros participou de uma das melhores oportunidades da equipe, enquanto Edson Felipe e Junio Henrique também buscaram o empate. Mas faltou precisão no momento decisivo.

Na segunda etapa, o jogo perdeu intensidade e passou a ser disputado em margens menores. O Paim administrava a vantagem construída logo no início, enquanto o Rio Branco procurava espaços para voltar ao placar.

Nos minutos finais, Vitor Cesar ainda precisou sair do gol para evitar uma última tentativa de pressão adversária.

O apito final confirmou o placar mínimo, mas também reforçou uma impressão que ficou evidente ao longo da partida: sem as defesas de David 1, a diferença poderia ter sido maior.

Grupo B | Bicho da Seda 3 x 0 Real Bueno

O último jogo do domingo começou em ritmo mais paciente do que o placar final sugere.

Durante boa parte do primeiro tempo, Bicho da Seda e Real Bueno alternaram momentos de posse e tentativas de construção, mas encontraram dificuldade para transformar presença ofensiva em chances claras de gol. Quando os ataques conseguiam superar a marcação, os goleiros Alexandre Batista e Jailson Gomes apareciam para manter o zero no placar.

A partida parecia caminhar para um segundo tempo equilibrado.

Parecia.

Logo na primeira investida após o intervalo, o Bicho da Seda sofreu um pênalti. João Neto 10 assumiu a responsabilidade da cobrança e abriu o placar.

O gol mudou o cenário do jogo.

Com a vantagem, o Bicho da Seda passou a encontrar mais espaços e aumentou a pressão sobre o adversário. Aos 15 minutos, João Neto voltou a aparecer. Livre diante do goleiro, demonstrou calma para finalizar e marcar o segundo gol da equipe.

O Real Bueno tentou reagir e chegou a criar situações de perigo, mas esbarrou novamente nas intervenções de Alexandre Batista e na dificuldade de transformar as oportunidades em gols.

Quando a partida já se aproximava do fim, veio o golpe definitivo.

Em um contra-ataque bem construído, Rosivaldo 7, o Rosigol, apareceu para completar para as redes e fechar o placar em 3 a 0.

A vitória consolidou o Bicho da Seda como a equipe mais eficiente da noite e transformou João Neto  no principal nome do confronto, com participação direta nos dois gols que abriram caminho para o resultado.

Um domingo que atravessou a cidade

Quando o último apito ecoou no Estádio Municipal Jack Marin, sete partidas já haviam passado pelo gramado. Houve goleadas, empate sem gols, lesões, golaços, pênalti defendido, hat-trick e decisões construídas nos mínimos detalhes.

Cidade Tiradentes, Itaquera, Campo Limpo, Jaçanã, Cidade Ademar, Parelheiros, M’Boi Mirim e Sé deixaram suas marcas ao longo do dia. Cada equipe trouxe consigo muito mais do que uma escalação ou um uniforme. Trouxe histórias de bairro, trajetórias coletivas e a vontade de seguir avançando na competição.

Porque nos Jogos da Cidade, o placar encerra a partida. A conversa sobre ela costuma durar a semana inteira.